A busca da identidade cervejeira no Brasil

“A formação da identidade começa onde termina a utilidade da identificação.” Alane Leal

Todo mundo faz um RG. Todo mundo tem nome e sobrenome, essa é sua identidade. A cerveja brasileira já tem uma identidade própria?

Segundo o dicionário Houaiss (2009) a palavra identidade é “o conjunto de características distintas de determinada pessoa em relação à outra sendo assim possível individualiza-la”. A primeira cerveja brasileira que temos notícia é indígena. A Cauim, como os índios chamavam, era uma bebida fermentada com mandioca. A proteína da cerveja era muito boa para os índios, o mesmo que para os povos ancestrais, a cerveja era parte da cultura e ritual, era fonte importante de nutrientes. Mas a cerveja de mandioca sozinha não representa nossa individualidade nos dias de hoje.

A cerveja chegou (mais parecida como a que conhecemos hoje em dia) ao Brasil somente em 1808 com a volta da família real as terras Tupiniquins no início do século XIX, ela já chegou com muitas das características que conhecemos hoje, diferente do fermentado de apim que seria nossa identidade mais ancestral. As receitas ainda não tinham o refinamento de hoje em dia, mas a diversidade e características de identidade alemã, belga ou inglesa já existiam. Essas escolas tem uma cultura muito antiga e são responsáveis pela cerveja ser como é hoje. Podemos beber uma cerveja de receita belga de olhos fechados que saberemos de quem é ou em quem foi inspirada.

Se compararmos as cerveja de antigamente com as de hoje, sabemos que as restrições tecnológicas e de matéria-prima dificultaram a qualidade nos tempos de outrora. Já as cervejas de hoje estão em profusão, o mundo está ao seu dispor como um grande supermercado, tendo uma ou outra dificuldade com relação a logística e quantidade disponível. A exportação e importação estão a todo o vapor, é a globalização das últimas décadas.

Vale lembrar que “autêntico não significa excelente”. Não é porque tem fruta brasileira que está tudo bem. No âmbito competitivo que vivemos hoje, a identidade é algo fundamental. As grandes indústrias são as responsáveis pela homogeneização das “pilsen” “light lager” e cervejas de sabores tão fracos que não há muita diferença entre elas. Mais amarelinha, mais amarguinha, mais baratinha são algumas características. É preciso um conceito bem desenvolvido.

Olhando para as mais antigas cervejarias com conceito artesanal aqui no país, todas elas tem em seu histórico um momento onde tentaram adicionar seu tempero, algo mais nacional em cima de receitas que tem como base o velho mundo. Aquela pitada bem brasileira veio mesmo com a Cervejaria Colorado que adotou o sabor nacional a todos os seus rótulos. Aos poucos, os cervejeiros foram se movimentando, saindo do estado de inércia, surgiram pessoas corajosas, estudaram, cresceram, beberam, viajaram e agora estão construindo algo pelo setor país a fora e por novas bandas também.

A escola brasileira se faz também nas panelas. Quando sai da panela, tem sotaque brasileiro, mas ainda puxa um acento gringo. Os estrangeiros estão vindo ao país aprender a cultura e diversidade brasileira e em muitos casos, estão nos ensinando como procurar por isso. Muitas cervejas colaborativas já tiveram uma assinatura diferente e circularam pelo mundo afora com o sabor daqui e visão de fora.

Precisamos estar conscientes da importância da profissionalização do setor para que tenhamos como buscar uma identidade firme, mais do que uma escola cervejeira, queremos ser reconhecidos pelo trabalho e não só pelo líquido. Não é só de fabricação que vamos desenhar nosso setor. Os cursos de profissionalização, as empresas que comercializam, os eventos, as embalagens, as matérias-primas, as propagandas, os sites, os blogs, os concursos, os serviços, as pessoas. Tudo está conectado.

Garret Oliver, cervejeiro desde 1994 da Brooklyn Brewer em Nova York esteve no Brasil e nos deu uma lição sobre criatividade. Ele disse em sua palestra que o processo de criação de algo (e usou a cerveja como referência, claro) começa com o momento em que copiamos o que outras pessoas fazem, o processo de repetição é a base do que forma uma pirâmide. Mais acostumados entramos no processo de variação. Acrescentamos algo diferente aquilo que antes só repetíamos. Depois é que começa o interessante, pois com o tempo, a dedicação e os estudos, começamos a criar algo diferente, uma técnica nova, um meio de modificar aquilo que antes copiávamos e depois variávamos. Por fim criamos uma identidade, algo inédito, algo que ninguém nunca fez antes. Aquilo que será dado como nosso, e que será copiado por outros e assim por diante.

Progredir e inovar estão em constante mudança no pensamento cervejeiro moderno. Mas importante é lutar para que o produto e a experiência entregue ao consumidor seja de qualidade que supere as expectativas. A cara brasileira vai estar estampada de diversas formas. Trabalhamos para isso, apesar das críticas e dificuldades. Portanto, um brinde!

 

texto publicado originalmente a pedido do site Pubers neste LINK